Soteropolitana I

Olá, nunca mais escrevinhei por aqui… vou tentar, a partir de agora, sempre registrar algumas das ideias sobre as peças que componho. Talvez seja uma boa utilidade pra esse espaço.

Soteropolitana I foi uma encomenda de Humberto Monteiro, percussionista da OSBA e fundador do grupo de música contemporânea PerCantos que é formado por uma atriz, uma soprano e quatro percussionistas (geralmente). Ele me pediu que usasse um berimbau. Ótimo! Tenho utilizado um com três notas, com a cabaça colocada um pouco mais acima, à 3/4 da beriba, gerando uma nota afinada uma décima (uma terça maior mais uma oitava) da nota solta do berimbau.

Sempre pensei muito em utilizar as referências regionais nas peças de música contemporânea de concerto e já tenho feito isso há algum tempo (vide T1patacuntum, Oxogbô, Oxowusí, Quatro Momentos para Iansã e Fantasia Baiana para Piano de Brinquedo, a maior parte delas com gravações disponíveis na aba Lista de obras), e me tornei muito mais convicto disso a partir de umas entrevistas que vi com o chef Alex Atala. A sua pesquisa com ingredientes únicos da terra e sua inclusão em receitas utilizando técnicas da cozinha contemporânea é fantástica. Olha o paralelo aí… isso não é novo na música, principalmente na Bahia, onde alguns membros do Grupo de Compositores da Bahia (década de 60) e principalmente Paulo Costa Lima, fizeram e tem feito uso constante desse recurso.

Nessa peça, além do berimbau e de um agogô, resolvi utilizar textos que tivessem uma “soteropolitanidade”, falando um pouco de Salvador, ou como soteropolitano, ou com um espírito soteropolitano. Para isso procurei texto de jovens baianos, amigos que sei que escrevem bem. Encontrei um texto de Joana Rizério que caiu como uma luva no projeto, duas poesias bacanas do meu amigo Kalu e mais duas de Gregório de Matos, que me lembrei por sua crítica ferina aos governantes da época.

Para fechar essa salada, amalgamando a parte musical, pensei em buscar um “tema baiano”, popular, contemporâneo e que fosse interessante quando “reduzido” à classes de conjuntos na Teoria Pós-tonal. Encontrei isso em Taboão, da Rumpilezz do Maestro Leitieres Leite. O tema principal, dividido em uma frase antecedente e outra consequente, me gerou dois conjuntos  – 4-22 (0247) e 4-11 (0135) – que são trechos da escala diatônica e que geram conteúdo completamente diverso (invariância por transposição) se transpostos ao trítono (T6). Utilizei sempre esse par de transposições ao mesmo tempo, funcionando quase como um conjunto de oito notas. O conteúdo intervalar dos conjuntos orientou as transposições utilizadas em cada parte da peça, gerando um “arco transpositivo” que vai ao mais distante e volta ao zero. Em dois pontos, um no instrumental do meio e outro no final, há uma “condensação” desse esquema.

A forma da peça funcionou da seguinte maneira: Picotei todo o texto de Joana e fiquei indo e voltando nele, intercalado com os outros poemas musicados e trechos instrumentais, deixando a peça com uma cara de rondó, principalmente por utilizar sempre o mesmo motivo no berimbau toda vez que volto para essa parte, e gerando uma certa expectativa que se mantém até o fim.

A partitura (e partes) está disponível na aba “Lista de obras“.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: