Avant-garde e vanguardas. É pra guardar essa van?

Considerando a definição de vanguarda, grosso modo, estar a frente de seu tempo, como podemos dizer que a utilização – não imitação – qualquer que seja, de elementos de qualquer vanguarda seja prejudicial? Beethoven foi um vanguardista. Ou não foi ele quem fez a passagem do classicismo pro romantismo? E o que dizer de seus últimos quartetos que beiram a atonalidade? E o que dizer do cromatismo de Wagner e o famoso acorde de Tristão? E o que dizer de Debussy, Stravinsky e Bartok? E a Segunda Escola de Viena? Para mim, todos vanguardistas, cada um a seu tempo. Os “novos” recursos apontados por essas vanguardas deveriam ter sido considerados inúteis pelos seus sucessores? Todos os que vieram antes, sendo simplista, não formaram os degraus que subimos até o que entendemos como música contemporânea de concerto nos dias de hoje? Como ignorar qualquer um desses degraus?

Creio que, como compositores, não deveríamos abrir mão de qualquer recurso para expressarmos o que precisamos. Creio também, e tento aplicar isso, que, como educadores, devemos munir os aprendizes da maior quantidade de recursos possíveis para que eles um dia possam fazer suas próprias escolhas.

Encaro tudo o que veio antes de mim como recurso e não abro mão de usar nada. Nem acordes maiores, nem clusters; nem polifonia, nem micro-polifonia; nem dobramentos em oitavas, nem recursos de técnica estendida; nem melodias, nem texturas. Esse é o meu projeto estético, por enquanto, se assim posso chamar. Para mim, isso é fazer música contemporânea de concerto. Não estar preso às amarras de qualquer sistema, apenas às regras de cada obra (o sistema-obra de Fernando Cerqueira). Essa talvez seja a maior lição que o século XX deixou: tudo é válido.

Considerando a questão da cópia pura e simples: Imitar a avant-garde, assim como imitar o barroco, ou romântico (ou o pós), ou o serialismo, ou qualquer outro “ismo” é bastante relativo – é muito pobre. Por outro lado, pelo que me consta, o compositor sempre aprendeu imitando e, no decorrer de sua vida, ele acaba escolhendo 1) se quer tentar dar um passo à frente; 2) se quer manter uma tradição ou 3) se prefere dar um passo atrás. Cada um escolhe seu caminho. Eu respeito todas as escolhas, inclusive as que não me agradam.

Existem outras situações… Em um caso, o indivíduo pode ter escolhido ser um “representante” de determinada estética e continuar a replicá-la, ou, num segundo caso, iniciantes realmente imaginam estar (re)descobrindo a pólvora. Como um exemplo, a minha primeira peça estreada foi “vanguardista”, em 94 (a vanguarda já estava datada?). Tinha acabado de aprender que era possível utilizar “efeitos”! Olha que descoberta fantástica! Fiz uma peça toda com efeitos gráficos – e algumas colcheias – e ela foi tocada ao vivo numa final de concurso pelo Bahia Ensemble com Piero Bastianelli como regente! Eu ali, pelo menos pra mim, estava fazendo algo novo. No primeiro caso temos então uma escolha deliberada. Porque não? Tem gente que continua compondo com contraponto tonal até hoje. E no segundo, experimentações de estudante fazem parte do processo de aprendizagem.

Colocar que a avant-garde esteja datada e o uso dos “novos” recursos apontados por ela sejam ocos, vazios ou qualquer termo semelhante, tem um outro lado que pode ser, no mínimo, frustrante, principalmente para os jovens. Explico: Se utilizar seus recursos é datado, utilizar os recursos de qualquer outro “ismo” anterior também não seria? Então compor é uma eterna busca pelo inédito, ou por recursos técnicos inéditos (desconsiderando aqui que a obra de arte é, pela pessoalidade do autor, já algo inédito), e nada que façamos é válido, a não ser que seja uma grande novidade? Isso não seria algo frustrante para os jovens compositores? Depois que todas as portas foram arrombadas no século XX, ainda há regras para transgredir? A história da música – quiçá da arte, prova que não é assim. Ela é toda feita de consolidação, mudança, reação e passos lentos.

E quem diz qual o prazo de validade de um novo procedimento? O que vejo de mais novo, pelo menos o que mais vejo sendo pesquisado e tem seduzido mais jovens compositores, são a nova complexidade (Ferneyhough) e o espectralismo (Grisey, etc), ambos da década de 80 do século passado. Também já caducaram? Ainda são grandes novidades?

De resto, quanto ainda se cria de original com lápis e papel? E com argila? E com concreto armado? E com kanvas e óleo? São diferentes materiais que se multiplicam através de diferentes poéticas potencializados por milhares de indivíduos pelo mundo. Cada indivíduo com sua bagagem, suas crenças e suas misturas, buscando fazer a sua obra de arte, que, por si só, se torna única e original porque feita por um ser único e original.

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